Portugal avançou com auto-estradas...

A produção automóvel em massa tem menos de cem anos.

 

Em 1892 foi comercializado o primeiro automóvel Daimler na Alemanha.

 

A produção em larga escala dá-se nos Estados Unidos em 1902 na fábrica Oldsmobile e mais tarde, em 1914, Henry Ford inicia a produção em linha de montagem do famoso Ford T, ao ritmo de um novo veículo a cada cinquenta minutos.

O seu sucesso industrial assentou na exploração intensiva do petróleo e minérios, iniciada na segunda metade do século XIX.

Em cada ano são produzidos milhões de novos veículos.

 

Nuno Ribeiro da Silva. "Carro eléctrico é limpo em Lisboa, mas passa CO2 para as centrais"

 

Presidente da Endesa Portugal diz em entrevista que é mais fácil limitar emissões numa central do que num milhão de veículos.

 

O livro "Porque é que o seu mundo vai ficar mais pequeno" do economista canadiano Jeff Rubin, que esteve na semana passada em Portugal, foi o pretexto para a entrevista com Nuno Ribeiro da Silva.

 

O ex-secretário de Estado da Energia de Cavaco Silva, que hoje preside à Endesa Portugal, faz o prefácio, mas nem sempre concorda com o autor.

A conversa saltou do petróleo para o novo fetiche na energia: o carro eléctrico.

 

Ribeiro da Silva é defensor mas admite que, e ao contrário do que já disse o primeiro-ministro, o veículo eléctrico não é 100% limpo de emissões.

Retira o CO2 das cidades e transfere-o para as centrais onde é mais fácil controlar as emissões. O presidente da Endesa contesta os ataques às renováveis e denuncia a incoerência da política energética que subsidia centrais térmicas.

Defende a subida do IVA sobre a electricidade para 12% e propõe uma tarifa por escalões de consumo que penalize quem usa mais.

 

O preço do petróleo parecia imparável, mas agora travou.

O petróleo está ao dobro do preço de 2006, apesar de tudo. O que em si é um sinal. Com a cotação nos 75 dólares há uma pressão de alta nos preços.

E atenção que temos de ver isto com olhos de euro, o que para nós é mais caro.

 

Falta o movimento especulativo que fez disparar o preço para 147 dólares?

Exactamente. Há um novo quadro da área financeira que foi quem também pôs muita lenha na fogueira em 2007 e 2008 e que está mais prudente e retraída. Mas há outras razões estruturais que levam a esta relativa acalmia. E tem a ver com o facto dos países da OPEP não estarem a cumprir as quotas. Estão a produzir muito mais.

 

O petróleo, como defende Jeff Rubin no seu livro, teve culpas na crise?

Indiscutivelmente. Nos choques petrolíferos de 1973 e 1979 foi evidente que o petróleo foi o factor que despertou essas crises.

Aumentos abruptos de preços provocam uma drenagem de recursos das economias importadoras para as exportadoras.

Nos anos 70, a reciclagem fez- -se, por exemplo, através da compra de armamento à indústria dos países ocidentais.

Agora foi para o imobiliário. Ou seja, foi pôr mais lenha na fogueira da bolha especulativa.

O efeito de crise nas economias importadoras é simples. O aumento do petróleo cria tensões inflacionistas e os bancos centrais aumentam o custo do dinheiro. O investimento e o consumo são penalizados. Há mais desemprego e menos rendimento.

 

O petróleo funciona como um travão às economias importadoras?

É a tal situação de barril de pólvora das cotações actuais. Foi o que aconteceu no início deste ano, antes de surgir a crise grega. Nesse sentido a tónica do autor faz sentido. Os países industrializados e importadores estão tramados. Mal as economias põem a cabeça de fora, lá vem o preço do petróleo a subir e os meios que estão a ser gerados por uma economia mais pujante são drenados para pagar aos exportadores.

 

O mundo vai ficar mais pequeno?

Preços de energia altos fazem pensar duas vezes sobre fenómenos de deslocalização, que implica mobilidade de pessoas e bens. Já tenho dificuldade de acompanhar a ideia de que voltaremos às origens. As coisas são dinâmicas. Vão-se encontrar outras soluções: novas formas de energia, racionalização de processos, agregar cargas no transporte. É provável que haja alguma fobia à deslocalização em bens e serviços em que o valor acrescentado é baixo e o custo de transporte é grande.

 

Uma ideia inquietante é a de que eficiência energética só leva ao consumo de mais energia.

Se tiver preços reais, não. Só que isso não acontece nos países que estão a galopar no consumo.

Se o ganho de eficiência for acompanhado de uma política de preços reais, não se abre a porta a mais consumo.

 

Em Portugal, há 680 carros por mil habitantes.

Na China, são pouco mais de 40 carros por mil habitantes.

 

É óbvio que o potencial de crescimento de produtos refinados é colossal. E por mais esforços que se façam de deriva para o veículo eléctrico, de eficiência energética, e de mobilidade através dos transportes públicos, isso não vai mudar.

 

Os transportes públicos podiam proteger da subida do petróleo. Mas Portugal fez o contrário. Avançou com as auto-estradas e adiou TGV.

É verdade. De facto é contraditório.

Tem uma indução por uma política de facilitar a rodovia versus outros modos mais pesados que têm menores consumos específicos por passageiro ou tonelada transportada em termos de energia.

Está a dar um sinal errado às boas práticas.

 

Vai-nos custar caro daqui a uns anos?

Claro, porque induz tráfego.

Mas já começa a haver movimentos contraditórios sobretudo nas grandes cidades.

 

Até que ponto o carro eléctrico pode ajudar a resolver o problema?

O carro eléctrico é o maior factor de mudança das últimas décadas na energia. O sector dos transportes é responsável por 40% da procura de energia final. É o que mais cresce e é uma coutada do petróleo que abastece 98% da procura.

 

As eléctricas querem entrar na coutada?

Sim. Mas até têm sido os governos os mais entusiastas. Os governos estão preocupados com a questão petrolífera e sobretudo pela insustentabilidade da concentração de contaminantes nos centros urbanos. Julgo que o veículo eléctrico vai entrar rapidamente e com expressão nas cidades para as pequenas deslocações. As viagens até 80 km a 100 km/dia, são mais de 80% de todas as deslocações.

 

Mas vai custar dinheiro ao Estado. Em Portugal, o automóvel e os combustíveis são grande fonte de receita fiscal.

Julgo que as Finanças com a sua tradicional criatividade vão encontrar formas supletivas de recuperarem o que será a potencial perda de receitas. Irão encontrar uma forma de recuperar na electricidade para motorização o que perdem em imposto no automóvel a petróleo.

 

Apesar do discurso do carro limpo, a indústria eléctrica é das principais emissoras de CO2.

O veículo eléctrico responde positivamente ao deslocalizar carga de poluentes dos meios urbanos, onde está a maior parte das pessoas, para os sítios onde funcionam as centrais eléctricas. Mas a fileira eléctrica é mais eficiente e tem menos perdas que o motor de combustão.

Ao passar contaminantes de Lisboa para Abrantes (onde fica a Central do Pego de que a Endesa é accionista), não deixamos de ter problemas, mas há um factor positivo. É muito mais fácil controlar as emissões num ponto, que é a central, do que em um milhão de carros.

 

O carro eléctrico ajuda a estabilizar o impacto das renováveis no sistema eléctrico porque carrega à noite.

A capacidade de produção tem utilização baixa ao longo do ano. Quando coloca a possibilidade de carregar os veículos, aumenta a taxa de utilização.

Há vantagens económicas, sobretudo se fizer a carga nos períodos de vazio onde a energia é mais barata. E nos ensaios que fizemos concluímos que é possível meter um milhão de carros eléctricos em Portugal sem que isso implique aumentar um megawatt (MW) de potência instalada porque os equipamentos estão parados.

 

Mas isso obriga as centrais térmicas a funcionar mais e a emitir mais CO2?

Sim e aumenta o CO2.

 

É um pau de dois bicos.

Sim. Mas a fileira eléctrica é mais eficiente e tem menos CO2 do que os automóveis a derivados de petróleo. Agora não passa é, pelo que eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, por ser 100% limpo. É limpo onde o carro anda. Lisboa fica limpa. Mas passa contaminação para a central eléctrica. Só seria limpo se a geração eléctrica fosse independente de fósseis a 100%, o que não é possível.

 

Isso leva-nos à polémica dos subsídios às renováveis.

Ninguém faz as contas correctamente aos custos de produção de todas as tecnologias.

A licença para a central de ciclo combinado de 860 MW custou zero e o investimento de 170 milhões para reduzir outras emissões foi pago pelas tarifas. No concurso das eólicas pediram-me à cabeça 35 milhões de euros para um fundo de investigação.

Quando produzo a electricidade numa central a gás e a ponho na rede ninguém me pede nada.

Nas eólicas, 2,5% do volume de vendas é entregue às câmaras.

No leilão das barragens, que também são renováveis, as eléctricas pagaram ao Estado 660 milhões de euros.

São factores de distorção. E depois falam na paixão das renováveis.

Há subsídios para tecnologias maduras, mas nas eólicas toda a gente acha um escândalo.

 

Os apoiantes do manifesto contra as renováveis têm a visão do consumidor.

Se queremos ir pela lógica da forma de energia mais barata, só consumimos petróleo.

É a forma de energia mais competitiva e barata.

Se não tivéssemos posto carga fiscal para dissuadir o consumo de petróleo, hoje o consumo global em vez de ser 10 era 14, por exemplo, e o preço em vez de ser 75 dólares estava nos 200 dólares.

Ter uma visão final e não dinâmica da complexidade do sistema energético leva a estes "statements" dramáticos de alguém que não sabe.

 

As contas do nuclear são conhecidas?

É um mito dizer-se que o nuclear tem de ser discutido.

Ele já é discutido em todos os fóruns. A Endesa/Enel, que é o maior grupo eléctrico do planeta, não vai fazer mais nuclear.

Mesmo em França é o Estado que segura as centrais nucleares porque as seguradoras se recusam.

Agora defendo que quem tem parques nucleares, em países onde há moratórias como Espanha, os deve manter.

Essas centrais já estão amortizadas e são competitivas.

Nuclear em Portugal, quem quiser que as faça e depois venda a energia ao preço de mercado.

 

A política do governo para a energia tem sido elogiada. Concorda?

Teve o mérito de dar à política energética prioridade na agenda do país e de conceber a energia como uma actividade económica.

Na gestão da estratégia tem havido incoerências, onde ressaltam aspectos da política fiscal.

 

Ainda há pouca concorrência para os domésticos na electricidade. Pode repetir-se o cenário no gás?

Espero que o governo cumpra a intenção de acabar com as tarifas nos dois mercados.

Disse que ia começar a desarmar as tarifas no final deste ano.

 

A questão é quem paga o défice.

Hoje quando nasce uma criança, leva logo com uma factura da luz de 200 euros.

O défice foi um erro de política energética. A electricidade é preciosa e temos de a gerir com a parcimónia.

O IVA da electricidade é de 5%, mas as janelas que isolam termicamente pagam IVA de 20%.

Que sinal damos? Consumam. Porque não aproveitam agora e passam o IVA para 12%?

 

Caía o Carmo e a Trindade.

Teria de haver uma tarifa social para as pessoas com menos rendimento.

Depois haveria também consumos mínimos a que qualquer pessoa devia ter acesso por segurança e conforto.

Até determinado valor de consumo há uma tarifa bonificada. Eu que tenho mais dinheiro também beneficiava do consumo mínimo essencial, mas depois havia um sistema de escalões em que o preço seria galopante.

É claro, teria de contar com o número de pessoas em cada casa e incluir consumos básicos, que poderiam ser subsidiados.

A partir daí, começaria a ter, no mínimo, preços reais e progressivos, para dar sinal de incentivo ao uso racional.

 

http://www.ionline.pt/conteudo/63604-nuno-ribeiro-da-silva-carro-electrico-e-limpo-em-lisboa-mas-passa-co2-as-centrais

 

 

"Sempre que as coisas parecem fáceis, é porque não entendemos todas as instruções."

 Princípio de AtropeLado

 

 

publicado por Oficial de mecânica às 23:31 | link do post | comentar