Carros com gente dentro...

Carros com gente dentro.

O Brilho das luzes.

 

Veralisa e Hirineu vestiram as suas melhores roupas para irem a um jantar romântico no dia de São Valentim. Estavam a arriscar uma reconciliação. Tinham tido uma pequena discussão devido a um gasto extraordinário que se veio a mostrar supérfluo. Nessa noite de sexta-feira, sentiam que esse jantar podia ser útil para ultrapassar o pequeno desentendimento e que a paixão entre ambos não estava em nada comprometida.

 

Chovia torrencialmente na cidade sadina. Podemos ir noutro dia, propôs Veralisa. Mas, Hirineu estava decidido a não adiar aquele jantar. Sugeriu que primeiro iriam jantar e depois, iriam ver um bom espectáculo que estivesse em exibição na cidade de Lisboa e que fosse do agrado de ambos. Veralisa que estava radiante com o seu novo carro - pegou no volante e fez-se à auto-estrada. Como chovia muito, o trânsito na A2 fluía mais lentamente do que o costume em direcção a Lisboa. O céu estava carregado de nuvens negras e a chuva forte batia vigorosamente no vidro, não a deixando ver um “palmo à frente do nariz”.

 

Apesar desta contrariedade, reinava a boa disposição dentro do VW Passat. Ele contava a história de um amigo que tinha adicionado no Facebook recentemente e que afinal, era um amigo de longa data que não via há muito tempo. Veralisa ria-se da história e comentava, a forma como as novas tecnologias colocaram a nossa imagem privada em imagem pública e como isso, com virtudes ou defeitos, acaba por alterar bastante o nosso modo de interagirmos uns com os outros. O brilho das luzes dos faróis de nevoeiro dos carros à sua frente que incidiam sobre o asfalto produzia um reflexo intenso que apesar de ser útil, era também de algum modo bastante incomodativo. Um embate seco e muito violento no carro fez com que este ficasse sem direcção, deslizando para o separador central, um pouco antes da Via Verde, nas primeiras portagens depois da entrada na auto-estrada.

 

Já nos bateram! Exclamou Hirineu alarmado. Foi a última coisa que recorda antes de perder os sentidos. Quando acordou, estava numa cama do Hospital Garcia de Orta, cheio de dores. Junto a si, Veralisa recordava-lhe o que aconteceu: as luzes fortes dos faróis de nevoeiro, o embate da carro que chocara contra eles que obrigou ao despiste e ao embate. A violência do embate no separador central de cimento e de como imaginou consequências de maiores dimensões. Felizmente que passada uma semana estavam os dois a recordar em casa aquela saída. Saída que tinha tido como missão uma reconciliação conjugal e afinal, acabou por ter o efeito pretendido por meios menos agradáveis àqueles que tinham planeado.

 

A partir dessa noite, Veralisa nunca mais foi a mesma. Quando pega no carro fica mais nervosa e passou a ter medo de conduzir em noites de chuva. Quando está na estrada anda também mais atenta ao que a rodeia. O autor do acidente fugiu antes de chegarem as ambulâncias e os bombeiros. E, passados seis meses, pergunta como é que as autoridades ainda não sabem nada! O mais curioso é que o outro condutor apesar de ter abandonado o carro deixou-o no local do acidente. A Brigada de Trânsito tomou conta da ocorrência e elaborou relatório.

 

O caso foi entregue à justiça, mas levantam-se rumores de que se trata de um imigrante ilegal que conduzia sem carta, sem seguro válido e o registo de propriedade da viatura poderá estar em nome de outra pessoa.

 

 

Cambiantevelador

“Ficção - qualquer semelhança com nomes ou realidade será mera coincidência.”

 

 

"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger

 

 

 

 

publicado por Oficial de mecânica às 15:15 | link do post | comentar