Estradas das cidades matam...

Estamos a morrer mais na estrada e por despiste

Associações querem maior responsabilização

Governo responde com a revisão da Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária.

ANSR ... relatório de vítimas mortais a 30 dias relativo aos primeiros seis meses de 2010 que começou a ser aplicado em Portugal

... as vítimas mortais resultantes de despistes ultrapassaram as provocadas por colisão (163) e atropelamento (84).

No período de Janeiro a Junho foram apuradas mais 89 mortes do que as apontadas no relatório provisório, que tinha apenas os números de mortes ocorridas no local do acidente ou no transporte para a unidade de saúde (a 24 horas).
Ou seja, a meio do ano, as contas provisórias de 327 mortos subiram para 416.
Como os dados reais são divulgados seis meses após as ocorrências, só em Julho é publicado o Relatório de Segurança Rodoviária de 2010, que permitirá tirar o retrato completo da sinistralidade rodoviária no país.
Nessa altura, será actualizado o total provisório divulgado - 747 mortos.
Mas este parcial por si só já representa um aumento de 1,4 por cento em relação a 2009, quando foram contabilizadas 737 vítimas mortais.
Um cenário nada famoso, mesmo levando em conta uma redução de 45 feridos graves.

Os distritos com aumentos mais significativos de vítimas mortais, no balanço anual provisório, foram Porto, Faro e Portalegre. Pelo contrário, Santarém, Setúbal e Évora foram os distritos que se distinguiram na redução de mortos na estrada. Porém, este ranking deverá sofrer alterações, uma vez que os dados a 30 dias colocam Lisboa (com 71), Porto (54) e Aveiro (46) à frente nesta trágica corrida, ao passo que Beja, Guarda e Vila Real registaram os valores mais baixos.

O presidente da ANSR, Paulo Marques, reconhece que os números de 2010 são "um mau resultado", quando comparados com 2009, mas salienta que se situam abaixo de 2008 e que "a tendência decrescente que se tem vindo a sentir não foi quebrada". Na última década, a média diária de mortes e de feridos graves diminuiu para metade, embora muitas vítimas acabassem escondidas nas entrelinhas das estatísticas.
Segundo a ANSR, entre 2000 e 2009, "cerca de 49 por cento dos acidentes com vítimas ocorreram em arruamentos, sendo que no mesmo período 43 por cento das vítimas mortais ocorreram nas estradas nacionais". Em termos globais, acrescenta o organismo, 71 por cento dos acidentes com vítimas deram-se dentro das localidades, onde se registaram 93 por cento dos atropelamentos... dos 66 por cento de vítimas mortais, 44 por cento são seniores.

"A bandeira dos números está esgotada" Manuel João Ramos, da ACA-M (Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados)
"Existem mais cerca de 40 por cento de mortos de acidentes rodoviários nas estatísticas da Direcção-Geral de Saúde e do Instituto Nacional de Medicina Legal", nota este dirigente associativo, sublinhando que os relatórios da última década estão, nesse caso, muito afastados da realidade da "guerra civil" nas estradas portuguesas. Manuel João Ramos mostra-se satisfeito com a alteração da contabilização das vítimas a 30 dias, apesar de recentemente a ACA-M ter revelado que lhe chegaram informações de que a contabilidade estava a ser feita "apenas a 14 dias" e não a um mês após o sinistro. "As grandes cidades estão a matar muita gente", lamenta o responsável da ACA-M, que aponta o dedo aos elevados prejuízos sociais e económicos para o país decorrentes de cada vítima mortal na estrada, em particular dos jovens.
 
"Mais de 35 por cento do número de feridos graves, no último ano, eram jovens em motorizadas", frisa Manuel João Ramos.
 
"As autarquias, em vez de promoverem a redução de velocidade em meio urbano, mostram-se apenas apostadas em facilitar a vida dos automobilistas."
A solução passa por aumentar os tempos para atravessamento dos peões e na relocalização de muitas zonas de travessia. "Há localidades onde não há uma passadeira que esteja legal." Mas devia ir mais longe, remata, não com a criação de cidadãos que sejam bons condutores, mas com peões que sejam mais críticos.

Nuno Salpico, do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades (OSEC), partilha das dúvidas acerca da forma como estão a ser recolhidos os dados a 30 dias das vítimas mortais de acidentes rodoviários.
"Só sabendo a real dimensão do problema é que se podem mobilizar meios", sustenta o magistrado deste organismo não governamental.
"Parece-me que o sistema, em muitos casos, ainda não está verdadeiramente implantado, quando actualmente muitos não morrem no local, nem no mesmo dia, mas dias depois." Embora sublinhe que a maioria dos automobilistas não adequa a condução às condições da via e do tráfego, Nuno Salpico entende que "o Estado tem obrigação de reduzir os factores de risco". Como? Através da realização de auditorias à rede viária, de forma a que as estradas cumpram os requisitos mínimos de segurança em termos de construção. Mas também na colocação das passagens para peões nos locais mais adequados. Ou ainda com o reforço da fiscalização da velocidade excessiva, pois "os radares em Lisboa cobrem apenas 1,2 quilómetros na extensão total da cidade". Por outro lado, o dirigente da OSEC alerta para a necessidade de o Ministério Público cumprir a sua missão de responsabilização das entidades oficiais pela insegurança da rede viária. E entende que o Governo deve travar a prescrição, todos os anos, de milhares de autos de contra-ordenação, muitas vezes por infracções graves, devido a uma incapacidade para o seu processamento em tempo útil.
 
"Existe um grande sentimento de impunidade."
Para o porta-voz da direcção nacional da PSP ainda é cedo para se retirarem conclusões acerca do aumento das vítimas mortais em 2010.
O comissário Paulo Flor descarta que a subida possa ser relacionada com uma menor fiscalização, porque em termos operacionais as autoridades não abrandaram. Ainda assim, concede que as condições atmosféricas desfavoráveis do ano passado, conjugadas com a falta de cautelas dos automobilistas, possam ter contribuído para um acréscimo de sinistros. "Muitos conduzem a uma velocidade que não lhes permite evitar uma colisão ou um atropelamento."
JN 23-01-2011

 

ANSR - Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária

http://www.ansr.pt/

 

InIR, I.P.

http://www.inir.pt/portal/1ªPágina/tabid/36/language/pt-PT/Default.aspx

 

 

publicado por Oficial de mecânica às 17:25 | link do post | comentar